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Apropriação Cultural (e por que turbantes não têm dono)

Em fevereiro deste ano, uma menina branca chamada Thauane Cordeiro postou no Facebook uma foto sua, vestindo um turbante. Na foto, ela diz que uma mulher negra a abordou e falou que ela não deveria usar o turbante por ser branca — o que seria, para alguns militantes raciais, o que chamam de apropriação cultural. A menina diz ter retirado o turbante e exposto sua careca, provando que tem câncer e que só usa o turbante pra reaver sua autoestima.

Não quero entrar no mérito de se essa história é verdadeira ou falsa. Por mais hipotético que seja, o post ainda assim ganhou relevância e trouxe a discussão novamente à tona. Até o momento, mais de 135 mil curtidas foram dadas na publicação da menina, porém uma imensidão de críticas negativas surgiram tanto no Facebook quanto em outras redes sociais.

Antes de tudo precisamos fazer uma distinção entre o sentido original do termo apropriação cultural e como ela é entendida hoje em dia.

Nos primeiros 3 livros indicados na descrição deste vídeo, que me foram repassados pelo filósofo do direito Valdenor Brito Jr., vemos que o conceito de ‘apropriação cultural’ tratava originalmente da discussão de ‘propriedade intelectual de povos indígenas’, e não sobre indivíduos usando turbantes.

O conceito, aliás, também era mais definido como simplesmente “usar elementos de outra cultura”, e não algo como “o ato errado de usar elementos de outra cultura”.

Portanto o conceito de apropriação cultural era descritivo e antropológico, não normativo e moralizante. Hoje o conceito, talvez por ter se popularizado no grande telefone sem fio da militância política, parece ter deixado de significar uma percepção sobre trocas culturais para significar uma narrativa normativa sobre como devemos levar nossas vidas em sociedade.

Se o conceito original se mantivesse, posso garantir que eu não estaria fazendo este vídeo, especialmente porque o conceito original abrangia aspectos éticos interessantes, mostrando que o que tornaria uma apropriação imoral não é a simples utilização de algo de outra cultura, mas a usurpação de maneira excludente desta, como por exemplo ocorreu com os Bronzes de Benim, que foram criados pelos povos Edo da África pré-colonial, e apoderados pelos britânicos.

Mas como o significado do conceito parece ter mudado e, como pede Voltaire, para conversarmos precisamos definir nossos termos, resolvi pesquisar sobre o que andam falando atualmente para que eu possa fazer uma crítica relevante e construtiva.

A partir do vídeo abaixo podemos seguir a conversa.

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